Amamentar seu bebê com necessidades especiais

Se seu bebê tiver necessidades especiais, ele pode não conseguir pegar o mamilo, mas há muitas outras formas de alimentá-lo com leite materno

Feeding your special needs baby breast milk

A amamentação é um exercício que exige muito do bebê. Quando ele mama, 40 músculos dos lábios, língua, mandíbula e queixo, além de seis nervos cranianos,1 atuam em conjunto para controlar e coordenar a sucção, a deglutição e a respiração.

Se seu bebê tiver uma incapacidade, doença ou distúrbio congênito que afete algum desses músculos ou nervos, ele pode não conseguir mamar. Ou pode conseguir, mas com dificuldade de ingerir leite suficiente. Mas isso não significa que ele não possa receber todos os benefícios do seu leite materno. Na verdade, suas propriedades protetoras e vitais para a saúde podem ser ainda mais importantes se o bebê tiver necessidades especiais.

"O leite materno contém muitos fatores de crescimento, imunológicos, anti-inflamatórios e células vivas", explica o Dr. Katsumi Mizuno, Professor de Medicina Interna Pediátrica no Hospital Koto Toyosu da Universidade de Showa, no Japão. "É importante dar leite materno ao bebê com necessidades especiais para evitar doenças infecciosas e garantir uma ótima nutrição.

"Os bebês com condições congênitas e neurológicas têm mais probabilidades de desenvolver infecções respiratórias2,3, de ouvidos4 e doenças gastrointestinais 5, e de necessitar de cirurgia. Seu leite materno é eficaz na prevenção de infecções e na promoção da recuperação",6 afirma o Dr. Mizuno.

Razões para o bebê apresentar dificuldades na amamentação

Fissura labial e/ou fenda palatina

O bebê com fissura labial, ou lábio leporino, pode não conseguir criar vedação em torno da mama durante a amamentação, mas um consultor em aleitamento ou especialista em amamentação ensina técnicas que podem ajudar. E, com frequência, o bebê com fenda palatina não consegue fazer os movimentos de sucção necessários para amamentar.7

Nascimento prematuro

Se seu bebê nasceu prematuro, ele pode ainda não ter a força muscular e a coordenação necessárias para mamar de forma eficiente. Leia mais sobre como dar leite materno ao seu bebê prematuro.

Síndrome de Down e outros tipos de trissomia

O bebê com síndrome de Down pode não ter a tonificação muscular e a coordenação da boca e da língua necessárias para mamar de forma eficiente no peito.8 Outros tipos de trissomia como a síndrome de Edwards e a síndrome de Patau também tendem a causar dificuldades complexas na alimentação.

Distúrbios neurológicos 

Com frequência, os distúrbios neurológicos (doenças do cérebro, coluna ou nervos) provocam hipotonia – termo médico para tonificação muscular reduzida. Paralisia cerebral,9 hidrocefalia, asfixia perinatal, espinha bífida, infarto neonatal, malformações cerebrais e encefalopatia hipóxico-isquêmica podem causar dificuldades na alimentação.

Síndrome de Pierre Robin

Esta síndrome se caracteriza pela mandíbula diminuída, muitas vezes combinada com fenda palatina e retração da língua, o que torna a amamentação quase impossível.10

Cirurgia oral

A cirurgia na boca, língua ou mandíbula do bebê pode tornar a amamentação dolorosa ou desconfortável durante algum tempo.

Extrair leite materno para o bebê com necessidades especiais

O primeiro passo é iniciar sua produção de leite para ter o suficiente para o bebê, de qualquer forma que ele consiga se alimentar. Se seu bebê não puder mamar logo, é importante coletar o máximo de leite possível, extraindo com frequência. Iniciar e desenvolver logo sua produção de leite vai garantir que você tenha leite suficiente para alimentar o bebê, agora e no futuro.

Recomenda-se a extração dupla cerca de oito vezes a cada 24 horas, para aumentar suas chances de desenvolver uma boa produção de leite.11 Peça ajuda a um consultor em aleitamento ou especialista em amamentação. 

"Nos primeiros meses, minha vida girava em torno da extração. Colocava o despertador à noite e me levantava a cada três horas para extrair leite", lembra Catherine, mãe de dois filhos, da Nova Zelândia. "Por causa da fenda palatina, o Michael não conseguia fazer os movimentos de sucção. Por isso, usamos uma mamadeira de compressão especial. Eu tinha que vigiá-lo enquanto se alimentava, para ele não se engasgar e para ver se havia leite saindo pelo nariz, o que o incomodava muito.

"Entrar em grupos de apoio online para mães que extraem exclusivamente me ajudou muito. Continuei a extrair leite para alimentá-lo durante sete meses. Foi um verdadeiro trabalho de amor!"

Formas de dar leite materno ao seu bebê

Alguns bebês precisam ser alimentados de forma diferente no início, até aprenderem a mamar no peito ou na mamadeira. Pode ser utilizada uma sonda para introduzir leite, de forma suave, diretamente no estômago do bebê. Os profissionais de saúde introduzem a sonda na boca ou no nariz. Assim que ele conseguir se alimentar de outra maneira, a sonda é retirada.

Se o bebê conseguir engolir, mas não mamar, você pode ser aconselhada a tentar outras formas de alimentação. "Métodos como o finger-feeding, em que o bebê recebe o leite de uma sonda ou alimentador de silicone no dedo da mãe, podem ser eficazes para bebês com distúrbio neurológico. Ou uma mamadeira para necessidades especiais, que pode ser mais fácil para o bebê", explica o Dr. Mizuno. "Isso depende muito do bebê. Outros podem preferir a alimentação com copo ou colher".

"A alimentação com copo ou colher costuma ser o método preferido e mais seguro quando a amamentação não é possível", continua o Dr. Mizuno. "Com ela você pode amamentar por mais tempo após a alta, embora deva ficar mais algum tempo no hospital. Na alimentação com copo ou colher, uma quantidade substancial de leite pode derramar.12 Por isso, se a ingestão de leite for regulada de forma precisa, todo o leite derramado deve ser medido.

Sarah, mãe de três filhos, do Reino Unido, compartilha sua experiência: "Nossa filha mais velha tem necessidades especiais, inclusive paralisia cerebral. No início ela mamava bem, mas no terceiro dia ficou muito doente. Daí até os dois meses foi alimentada com leite materno extraído, com sonda nasogástrica. Enquanto ela ficou no hospital, eu extraia leite a cada três horas". 

A história de Sarah teve resultado positivo: "Por volta das oito semanas, quando a saúde dela ficou mais estável, reintroduzimos a amamentação direta com o apoio de um especialista, e ela retomou com facilidade. Com 12 semanas, quando veio para casa, ela mamava exclusivamente no peito.

"Com tantas pessoas envolvidas nos cuidados da nossa bebê, extrair leite me fez sentir que tinha um objetivo e um papel especial, e isso me ajudou a continuar numa época extremamente difícil".  

Se seu bebê conseguir pegar a mama

Se seu bebê for fisicamente capaz de pegar a mama, continue a oferecê-la regularmente além de usar outros métodos de alimentação. Mesmo que ele não chegue a mamar, esse tipo de "sucção não nutritiva" conforta e tranquiliza seu bebê, fazendo com que se sinta seguro, aquecido e amado. Também permite que ele pratique a sucção, o que mais tarde facilita a transição para a amamentação exclusiva.

Se o bebê conseguir mamar um pouco no peito, mas sem satisfazer suas necessidades nutricionais, converse com profissionais de saúde sobre a quantidade de leite extraído de que ele precisa e a melhor forma de alimentá-lo. O sistema de nutrição suplementar é uma forma de dar leite extraído ao bebê enquanto ele mama. Ou você pode experimentar um dos dispositivos mencionados acima.

Se seu bebê estiver se recuperando de uma cirurgia oral – como fissura labial ou fenda palatina – a amamentação pode ser desconfortável durante algum tempo. Ofereça a mama, além de outros métodos de alimentação, pois mesmo a sucção não nutritiva tem efeito calmante, e estudos sugerem que pode ajudar o bebê a lidar com a dor.13

"Muitas pessoas me disseram que meu filho não conseguiria mamar com fissura labial. Na verdade ele mamava bem, mas machucava meus mamilos ao pegar a mama", lembra Nicola, mãe de três filhos, do Reino Unido. "Logo depois da cirurgia ele sentia dor, mas em pouco tempo tudo se acertou. A forma de pegar a mama mudou muito. Demoramos um pouco a nos acostumar, mas logo ele voltou a mamar bem e continuamos até ele fazer um ano".

Referências

1 Walker M. Breastfeeding management for the clinician. 4th edition. Burlington, MA, USA: Jones & Bartlett Publishers; 2016. 738 p.

2 Seddon PC, Khan Y. Respiratory problems in children with neurological impairment. Arch Dis Child. 2003;88(1):75-78.

3 Proesmans M. Respiratory illness in children with disability: a serious problem?. Breathe. 2016;12(4):e97.

4 Zeisel SA, Roberts JE. Otitis media in young children with disabilities. Infants Young Child. 2003;16(2):106-119.

5 González DJ et al. Gastrointestinal disorders in children with cerebral palsy and neurodevelopmental disabilities. An Pediatr (Barc). 2010;73(6):361.

6 Salvatori G et al. Human milk and breastfeeding in surgical infants. Breastfeed Med. 2014;9(10):491-493.

7 Reilly S et al. ABM Clinical Protocol# 17: Guidelines for breastfeeding infants with cleft lip, cleft palate, or cleft lip and palate, Revised 2013. Breastfeed Med. 2013;8(4):349-353.

8 Thomas J et al. ABM Clinical Protocol #16: Breastfeeding the Hypotonic Infant, Revision 2016. Breastfeed Med. 2016;11(6).

9 Wilson EM, Hustad KC. Early feeding abilities in children with cerebral palsy: a parental report study. J Med Speech Lang Pathol. 2009:nihpa57357.

10 Nassar E et a. Feeding-facilitating techniques for the nursing infant with Robin sequence. Cleft Palate Craniofac J. 2006;43(1):55-60.

11 Kent JC et al. Principles for maintaining or increasing breast milk production. J Obstet Gynecol Neonatal Nurs. 2012;41(1):114-121.

12 Dowling DA et al. Cup-feeding for preterm infants: mechanics and safety. J Hum Lact. 2002;18(1):13-20.

13 Harrison D et al. Breastfeeding for procedural pain in infants beyond the neonatal period. Cochrane Database of Syst Rev. 2014;10:CD11248